Médico de Macaé tira dúvidas sobre novo Coronavírus e alerta: “isolamento social é a melhor arma para combater o vírus”

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Daniela Bairros

Depois que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou pandemia do novo coronavírus, medidas drásticas em várias cidades, principalmente em grandes centros como São Paulo, onde quatro mortes já foram confirmadas, e Rio de Janeiro, foram tomadas pelas autoridades, municipais e estaduais. Entre as medidas, decretos que proíbem a realização de eventos em locais com mais de 100 pessoas, suspensão de aulas, aumento da frota de ônibus para evitar superlotação e o transporte de passageiros em pé, proibição, por 30 dias, de entradas de ônibus de turismo em cidades praianas, entre outras. Mas o que tem chamado a atenção para a situação, é a frequência de pessoas em praias. Desde o início da semana, agentes da Defesa Civil Estadual  e Corpo de Bombeiros, estão percorrendo as praias da região, fazendo apelos à população para que fique em casa e ajude a combater o novo coronavírus. O decreto não é  de férias, mas sim de prevenção, cuidados redobrados, segundo as autoridades.

Macaé não possui casos confirmados da doença, mas mesmo assim, segundo o Médico Pneumologista e Professor de Pneumologia da UFRJ Macaé, Gleison Marinho Guimarães, pessoas podem sim ficarem doentes, caso não adotem uma das principais medidas: o isolamento social. “Por mais doloroso que isso seja, vivemos em comunidade, vivemos com outros , pelos outros, o tempo inteiro. O momento é de se isolar. O isolamento social é a principal arma para combater o vírus”, ressaltou. Segundo o médico, é preciso ter mais cuidado, porque a partir do momento em que alguém é infectado, pode-se transmitir a doença. “Isso é importante que todos entendam: a infecção, não necessariamente, faz doença. E esse é o problema. Os estudos chineses que temos avaliado nestes últimos dias, é que mesmo o indivíduo não doente, faz sim a transmissão. Então, é uma responsabilidade de cada um. Não basta somente lavar a mão, não basta somente usar álcool em gel e não basta somente usar máscaras. Até porque o uso de máscara está restrito aquele indivíduo que já está doente, com uma síndrome gripal ou profissional de saúde, que está na linha de frente, no fronte de atendimentos. Caso contrário, não é necessário o uso de máscara cirúrgica, que é a mais comum, muito menos a máscara N95 para qualquer pessoa. Não existe necessidade de correr às farmácias para comprar uma N95, até porque as pessoas nem sabem usar.  A mais correta e importante medida: se isolar, ficar em casa”, explicou.  Sair de casa, de acordo com Guimarães, em último caso. “Se a pessoa puder, opte pelos serviços de entrega, de delivery. A conduta e a rotina devem ser essas a partir de agora.  Tomem como exemplo El Salvador, que tem sido o cenário ideal para contenção do vírus”.

O que é o Coronavírus

O Coronavírus é um vírus da família com o mesmo nome. De acordo com Gleison Marinho, ele é documentado desde 1937. Em 1965, foi inscrito no ponto de vista microscópico, como um vírus em aspecto de coroa, por isso o nome. Desde as décadas de 70 e 80, ele vem cultuando infecções gerais, síndrome gripal e resfriado comum. “É um vírus rotineiro, como qualquer outro que está por ai. A questão é que os vírus são passíveis de mutação. Os vírus são mutantes e, com as mutações, ele adquire mais capacidade de provocar doenças letais, como aconteceu com o SARS COV 2, mas precisamos lembrar, que já existiu o SARS COV 1 e o MERS. Todos eles eram coronavírus. E os mais comuns que circulam entre a população e que eu atendo, são o Coronavírus Alpha e o Beta Coronavírus, que são mais ‘calmos’ e não possuem tanta capacidade de causar doença. Mas agora fomos surpreendidos pelo vírus que surgiu na China, em dezembro do ano passado. O SARVS COV 2, que é o nome do vírus, faz a doença e pode permitir a Covid-19, que é a doença causada pelo SARVS COV 2 e é uma doença que possui um painel de amplitude e sintomas enorme”, explicou o médico.

Geralmente, a Covid-19 varia com uma síndrome química muito branda. Mas, infelizmente, segundo aponta Gleison Marinho, ela tem escolhido alguns grupos de risco e essa é a grande preocupação. “Por isso que o exercício grande de empatia que devemos adotar ou que muitos deveriam já estar adotando, é o isolamento social. Será o legado muito grande dessa pandemia. Porque mesmo que eu não tenha mais de 60 anos de idade, ou seja, que eu não esteja no grupo de risco, é preciso entender que o grupo de risco corre muito risco, por terem dez vezes mais chances de morrer do que a população comum”.

Quem pertence ao grupo de risco

Segundo explicou o médico pneumologista, pertencem  ao grupo de risco, indivíduos acima de 60 anos, pessoas que usam medicações contínuas, ou seja, pacientes que têm doenças crônicas, como doenças cardíacas, hipertensão, diabetes tipo 1 e tipo 2, doenças renais, pacientes que fazem diálise, pacientes com doenças pulmonares, como asma, bronquite crônica, enfisema, doentes com problemas hepáticos, como hepatites crônicas, pacientes com doenças autoimune, que por conta de alterações imunológicas, não permitem resposta imune adequada, devido o uso de drogas imunossupressoras, que diminuem o sistema imune. “É claro que todas essas condições, uma vez bem tratadas, vão reduzir o risco do paciente evoluir algo mais grave. Como, por exemplo, a asma leve. Não é grupo de risco grande, porque o paciente está tratando, porque não tem sintoma, quase não apresenta queixa clínica de falta de ar, tosse. Esse tem menor chance, principalmente se é jovem. Mas se é uma pessoa asmática, que já usa medicação contínua e que tem mais de 60 anos, é um grande candidato a pertencer ao grupo de risco.

Pacientes com doenças respiratórias x Coronavírus

Os pacientes com doenças pulmonares precisam saber, segundo Gleison Marinho Guimarães, é que devem estar com as medicações em dia. “Não dá para o asmático se tratar agora. E outros portadores também, como o DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva) precisam tratar, para que tenham menores riscos de doenças graves, já que são grupo de risco, porque os grupos de risco possuem mais suscetibilidade (possibilidades) de doença, porque esse vírus, o corona, é igual para todo mundo. Todo mundo faz infecção da mesma forma, basta se contaminar. Pela mão suja na boca, olho e nariz. Pela gotícula a menos de um metro, pelo ar e pela mesma distância. O coronavírus é transmitido pelo ar, pelo contato, e talvez até por outras formas, como pelo suor e pelo sangue. Então, podem existir outras possibilidades de transmissão que nós não temos dominado ainda. Portanto, o paciente com pneumonia, precisa sim estar resguardado, precisa ficar mais em casa, precisa manter a terapêutica adequada. Precisa estar com as vacinas em dia, as vacinas pneumocócicas, que protegem contra a pneumonia e contra a influenza, porque não dá para permitirmos um ciclo de vírus de influenza, como acontece todos os anos. Indiscutivelmente, neste ano, vamos diminuir a transmissão do influenza, porque o vírus se transmite quase da mesma forma que o corona. Se eu lavar mais a mão, usar mais álcool em gel e ter uma etiqueta respiratória ao tossir, vou diminuir a transmissão, mas é importante que todos se vacinem, principalmente os pacientes com pneumonia”.

Fake News sobre o Coronavírus

 

Além de adotarmos cuidados rotineiros, como isolamento social, lavar as mãos com sabão, higienizar com álcool em gel, o combate ao coronavírus se dá também com informações corretas e verdadeiras. Desde quando a pandemia foi anunciada, notícias falsas, por exemplo, de que o vírus pode ser combatido com chá de alho, gargarejo com vinagre, entre outras, estão circulando pelas redes sociais. Por isso, para o médico pneumologista, é importante que neste momento, as pessoas entendam o que é cultura popular, o ‘dito da vó’ e o que é ciência médica, ciência comprovada. “O que existe de ciência comprovada é tudo o que está escrito pelo Ministério da Saúde do Brasil, pelo CVC (Condições Gerais de Contratação), pela Academia Americana de Tórax, pela europeia, pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, Cremerj (Conselho Regional de Medicina), Conselho Federal de Medicina, conselhos de fisioterapia, conselhos de enfermagem, ou seja, conselhos dos profissionais de saúde e que são fontes confiáveis de informação. Não dá para todo mundo querer ajudar, todo mundo precisa ajudar sim, cada um fazendo sua parte e já muito ajuda, principalmente não divulgando qualquer notícia e até mesmo receitas para eliminar o vírus. O apavoramento, o alarmismo, assusta mais do que ajuda. É importante drenar as informações antes de postar no grupo de amigos do whastapp, que gargarejo com água, sal e vinagre, por exemplo, vai matar o vírus. As fakes News tem atrapalhado bastante o trabalho de nós profissionais, médicos. É o que tem mais me agoniado até o momento. É a quantidade de fake News que tenho lido”, ponderou.

Casos suspeitos em Macaé

Segundo boletim divulgado pela Prefeitura de Macaé na tarde desta quinta-feira (19), nove pessoas, com vínculo epidemiológico, estão sendo monitoradas diariamente em isolamento domiciliar na cidade. Não há nenhum caso confirmado de coronavírus em Macaé. Mas, mesmo assim, há motivos para preocupação, sim. Para o médico, não só em Macaé, mas no mundo todo. “Quem não está preocupado, deve estar na Itália, que errou bastante e China errou também, no início. Os países que deram sequência a situação. A China não tem mais nenhum caso novo. E o isolamento social, mesmo que iniciado tardiamente, surtiu efeito. Porque é a principal forma de combater o vírus. Em Macaé, precisamos sim nos preocupar, porque não temos respiradores para todo mundo, não temos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para todo mundo. Não temos leitos hospitalar para todo mundo, apesar de termos uma saúde bastante risca, do ponto de vista de conseguir resolver problemas de atenção básica, de forma razoável. Macaé ainda é exemplo de saúde para muitas regiões do Brasil. Somos referência de saúde pública para diversos municípios que estão ao redor, porque atendemos a população de Carapebus, Casimiro de Abreu, Quissamã, Conceição de Macabu, Rio das Ostras. Somos um polo de atendimento dessas cidades, que não têm sistema de saúde de suporte, principalmente quando acontece uma situação como essa. Precisamos nos preocupar sim, porque não são só 250 mil habitantes, são 600 mil para talvez 300 respiradores. Se nós formos compor a população de respiradores, de ventilação mecânica, 300, 400 respiradores, que existam no total, em hospitais públicos e privados, não estamos prontos para atender uma demanda de doentes graves. E a tendência é que os casos aumentem sim nas próximas semanas, se as pessoas continuarem indo à praia, se ficarem aglomeradas. Se persistirem na falta de cuidados, isso vai explodir como explodiu em todas as regiões onde não houve isolamento social. O vírus é transmitido pelo espirro, tosse, na superfície contaminada, que pode ficar alguns dias. Não basta somente se cuidar, usando álcool em gel, até porque muitas pessoas estão com dificuldades em encontrar o produto, principalmente em farmácias. Mas, por favor, entendam: a transmissão não poderá ser evitada  somente lavando as mãos com sabão, higienização das mãos com álcool em gel, mas também, e principalmente, evitando o contato físico. Portanto, se isolem, fiquem em casa. Não dá para comemorar nada agora neste momento”, concluiu.

Aos sinais de tosses e ou febre e vice-versa, não vá ao hospital. “Precisamos entender que a mortalidade dos indivíduos mais jovens é baixa. No Brasil, vamos evoluir para mortalidade mais alta, mas vamos ter uma mortalidade mais alta porque não estamos testando todo mundo, somente em quem  está no hospital e quem está grave. Então, a mortalidade vai subir para o número total de pacientes confirmados. A partir do momento em que começarmos a testar todo mundo, esta mortalidade, naturalmente, vai abaixar. Porque os indivíduos mais comumente infectados serão positivos e ai a maioria não evolui com gravidade. Então vamos ter inicialmente como aconteceu em todos os países com nível de mortalidade maior.  A medida que testarmos todo mundo, o índice cai. Então vai ficar, provavelmente, como a corte chinesa e italiana, de 2.3 a 2.7% de mortalidade, que é grande sim em idosos, acima dos 80 anos, de 14,8 a 17%.  Vai ter diminuição. Se o indivíduo tem sintoma de caso suspeito,  que já mudou a referência. Até duas semanas atrás, trabalhávamos com a definição de caso suspeito, seria febre e ou associada à tosse e ou falta de ar associada aos sintomas gripais, como coriza, espirro, entupimento nasal, desânimo, falta de apetite. Isso é a  síndrome gripal, que é igual a síndrome influenza. Causada pela gripe comum. Quanto ao coronavríus, precisa estar viajando ou ter viajado e ter tido contato nos últimos 14 dias, fora do Brasil. Agora como em São Paulo e Rio de Janeiro já são cidades com transmissão sustentada, basta ter contato porque a circulação de pessoas é livre por aqui.  Todos nós podemos ser possíveis doentes hoje. Atualmente, a definição de casos suspeitos vai envolver muito mais síndrome clínica gripal, que é totalmente igual a qualquer outra síndrome gripal causada  pelos vírus já mencionados. Isolamento social é a medida mais correta, mais bonita até. Precisamos, mais do que nunca, ter empatia. Ter fé, orar e rezar. Estamos, teoricamente, uma semana em alerta, mas a batalha está apenas começando. Isso é indiscutível. E vamos nos cansar mais ainda. Que todos nós estejamos fortes e menos doentes para atender a popular que precisar”.

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